domingo, 23 de novembro de 2008

Desaposentar

Ele chegou à praça com uma marreta. Endireitou a estaca de uma muda de árvore e firmou batendo com a marreta.

Amarrou a muda na estaca e se afastou como pra olhar uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
- O senhor é da prefeitura?
- Não, sou da Alice, faz quarenta e dois anos. Minha mulher.
- Ah… O senhor quem plantou essa muda?
- Não, foi a prefeitura. Uma árvore velha caiu, plantaram essa nova de qualquer jeito, mas eu adubei, botei essa estaca aí. Olha que beleza, já está toda enfolhada. De tardezinha eu venho regar.
- Então o senhor gosta de plantas.
- De plantas, de bicho, até de gente eu gosto, filho.
- Obrigado pela parte que me cabe…

Ele sorriu, tirou um tesourão da cinta e começou a podar um arbusto.
- O senhor é aposentado?
- Não, sou desaposentado.
Foi podando e explicando:
- Quando me aposentei, já tinha visto muito colega aposentar e murchar, que nem árvore que você poda e rega com ácido de bateria… Sabia que tem comerciante que rega árvore com ácido de bateria pra matar, pra árvore não encobrir a fachada da loja? É… aí fica com a loja torrando no sol!

Picotou os galhos podados, formando um tapete de folhas em redor do arbusto.
- É bom pra terra… tudo que sai da terra deve voltar pra terra… Mas então, eu já tinha visto muito colega aposentar e murchar. Botando bermuda e chinelo e ficando em casa diante da televisão. Ou indo ao boteco pra beber cerveja, depois dormindo de tarde. Bundando e engordando… Até que acabaram com derrame ou infarto, de não fazer nada e ainda viver falando de doença.
Cortou umas flores, fez um ramalhete:
- Pra minha menina. A Alice. Ela é um ano mais velha que eu, mas fica uma menina quando levo flor. Ela também é desaposentada. Ajuda na escola da nossa neta, ensinando a merendeira a fazer doce com pouco açúcar e salgados com os restos dos legumes que antes eram jogados fora. E ajuda na creche também, no hospital. Ihh… A Alice vive ajudando todo mundo, por isso não precisa de ajuda, nem tem tempo de pensar em doença.

Amarrou o ramalhete com um ramo de grama, depositou com cuidado sobre um banco.
- Pra aguar as mudas eu tenho que trazer o balde com água lá de casa. Fui à prefeitura pedir pra botarem uma torneira aqui. Disseram que não, senão o povo ia beber água e deixar vazando. Falei pra botarem uma torneira com grade e cadeado que eu cuidaria. Falaram que não. Eu teria que ficar com o cadeado e então ia ser uma torneira pública com controle particular, e não pode.

Sorriu, olhando a praça.

- Aí falei: então posso cuidar da praça, mas não posso cuidar de uma torneira? Perguntaram, veja só, perguntaram se tenho autorização pra cuidar da praça! Nem falei mais nada. Vim embora antes que me proibissem de cuidar da praça… Ou antes que me fizessem preencher formulários em três vias com taxa e firma reconhecida, pra fazer o que faço aqui desde que desaposentei… Ta vendo aquele pinheiro fêmea ali? A Alice que plantou.
Só tinha o pinheiro macho. Agora o macho vai polinizar a fêmea e ela vai dar pinhões.

- Eu nem sabia que existe pinheiro macho e pinheiro fêmea.

- Eu também não sabia, filho. Ihh… aprendi tanta coisa cuidando dessa praça! Hoje conheço os cantos dos passarinhos, as épocas de floração de cada planta, e vejo a passagem das estações como se fosse um filme!

- Mas ela vai demorar pra dar pinhões, hein? - falei, olhando a pinheirinha ainda da nossa altura. Ele respondeu que não tinha pressa.
- Nossa neta é criança e eu já falei pra ela que é ela quem vai colher os pinhões. Sem a prefeitura saber… e a Alice falou que, de cada pinha que ela colher, deve plantar pelo menos um pinhão em algum lugar. Assim, no fim da vida, ela vai ter plantado um pinheiral espalhado por aí. Sem a prefeitura saber, é claro, senão podem criar um imposto pra quem planta
árvores…
- É admirável ver alguém com tanta idade e tanta esperança!
Ele riu:
- Se é admirável eu não sei, filho, sei que é gostoso. E agora, com licença, que eu preciso pegar a Alice pra gente caminhar. Vida de desaposentado é assim: o dinheiro é curto, mas o dia pode ser comprido, se a gente não perder tempo!

(Domingos Pellegrini)



Gentileza

É impressionante como esta palavra, gentileza, pode está carregada de tanto significado. Embora seja bastante comum ouvir falar sobre, dificilmente somos instigados a praticá-la.

Há algum tempo atrás, estava eu no refeitório da minha universidade quando uma amiga estava nos proporcionando momentos de gozo ao ouvir a música que saia de sua voz e estava impregnada de tantos sentimentos bonitos. Na ocasião ela cantou uma música da cantora "Marisa Monte", intitulada "Gentileza". Esta música é o relato da história de um homem que ficou conhecido como "Profeta (ou poeta) Gentileza". Este homem recebeu esse apelido pois tinha um hábito bastante atípico; costumava pintar os muros da cidade com poesias. Uma entre várias histórias sobre esse ser humano ilustre nos diz que Ele dedicou quatro anos de sua vida na criação e manutenção de uma jardim; isso por sí só, já é um ato nobre; no entanto o lugar onde ele fez isso foi no mesmo local onde dias antes tinha sido acometido pela tragédia do "Gran Circus Norte-Americano", um grande incendio que matou mais de 500 pessoas, a maioria crianças. Hoje em dia esse jardim é chamado de "Paraíso Gentileza" e está localizado na cidade de Niterói - RJ.

Depois de ter criado seu paraíso, o nosso poeta saiu vagando pela cidade pintando os muros com palavras de amor. Isso mesmo "Amor". Durante o resto de sua vida ele dedicou-se a tentar mostrar as pessoas que o amor é a principal fonte libertadora do mundo.

O tempo passou, pintaram os muros de cinza. No entanto permanece vivo no corações de muitos o que o profeta gentileza nos ensinou: "gentileza gera gentileza".

Bom saber que ainda existe gentileza nesse mundo.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Onde Vivem as Lendas?



















"São mais de treze mil as ilhas do Arquipélago da Indonésia, espalhadas como lajotas entre os continentes da Ásia e da Austrália, mas em mapa algum será encontrada Nus Tarian.
Apesar de tudo, ela existe.
Somente o nome da ilha foi mudado. E eu também mudei".
(Lyall Watson)
Muitas pessoas resolvem escrever motivadas por experiências vividas; outras escrevem para tentar disfarçar certas frustrações de não ter vivido.

No meu caso desde criança percebo que tenho uma forma singular de ver o mundo como um todo. Sempre fui motivado a acreditar que os sonhos não são apenas sonhos; são oportunidades que surgem dentro de nós para mudarmos nosso destino.

Acredito que o meu destino é mudado a cada dia que se passa, a cada hora que bate no relógio e a cada segundo que respiro.

Isso quer dizer que meus sonhos são mudados constantemente? Creio que não.

Escolhi como tema para este blogger, o nome fictício de uma pequena ilha da Indonésia que é mencionada no livro "Onde Vivem as Lendas" de Lyall Watson. Este livro tem uma importância ímpar em minha caminhada, pois trata-se da história de um biólogo, assim como eu, que encontrou-se obrigado a ver o mundo de uma forma diferente. Assim como é comum para qualquer homem de ciência, o mundo nada mais é que um grande laboratório onde existem numerosas coisas e fenômenos a serem descobertos. Embora essa prática de ver o mundo seja a mais comumente utilizada dentro do âmbito da ciência, ela não é aplicável a todas as situações e coisas. Neste livro o autor traz a tona diversas experiências vividas por ele que o obrigou a deixar de lado essa visão limitada do mundo e passar a ver o mundo e seus acontecimentos de outra forma.

Sei que é dificil explicar isso, até porque as palavras não são o melhor meio de explicar nossas sensações. No entanto, tentarei, de maneira gradativamente, explicar um pouco da minha forma de ver o mundo. Se é a melhor forma de se ver não posso dizer. Apenas afirmo que o vejo (mundo) da melhor maneira que posso.